''Senhor...'', lamuriava, sentada n'um quarto vazio, toda perdida n'uma imensidão estreita de fantasmas flutuantes e desesperadores. Chorava tanto, pobre, cansada de todo oco, implorando alegrias inesgotáveis de borboletas segurando-lhe as mãos frias e temerosas. As águas lhe escorrendo e desmanchando as maquiagens servidas para esconder imperfeições mil, tão aterrorizantes, estas, que sentia ela medo de esquivar de si a única lembrança de vida que lhe restava, a única salvação, o único refúgio capaz de abrigar cada medo seu, o único abraço a encaixar tão liricamente dois corações exasperados, necessitados, cheios de faltas e excessos, de saudades e sofreres, quereres inesgotáveis, incontroláveis.
Sem perceber, abraçava a seus próprios ombros, tão só, tão pequena, criança frágil tragicamente convencida de sua orfandade. Seus pés manchados de sangue eram encolhidos contra o resto do corpo, como tentando sumiço de qualquer porção de terra que lhe insistisse em apontar pontas de solidão. Sorrisos - os esboçava de quando em quando, sem o calor que tem a real felicidade.
Tentava contar em seus dedos sujos quantas haviam sido as pueris tentativas de dança em frente àquele espelho estilhaçado, efeito de um ódio, sabia, inerte e eterno. Lembrava-se de como era confortável aquela mão sobre seus cabelos oleosos, seus olhos cerrados à inocente degustação de um beijo em ternura, suas mãos não mais tremendo... Lembrava-se, ou tentava lembrar-se, e parecia tudo então distante e incabível, como tivessem sido seus olhares desde sempre tombados, suas pálpebras assim a querer encerrar seus dias infernalmente arrastados.
Sem voz, tentava gritar, clamaria piedade - Que lhe arrancassem a dor dos cacos de vidro adentrando a pele, que lhe enxugassem as faces, que lhe cuidassem das pernas bambas... ''Meu deus, meu deus...''. Balançava-se em seu mísero espaço ainda mais diminuído, transbordando fés contraditórias à sua paralela desistência, tão angustiada de uma existência que lhe pairava sem deixar-se agarrar. Não percebia claramente seu distanciamento, sua respiração profunda, as sombras cheias de confusão feitas por uma visão que, junta à batimentos cardíacos em calmaria, parecia dar-lhe em presente o descanso com que tanto sonhara. O sono trazia-lhe flores amarelas, asas pálidas voando de volta, pés movendo-se n'um embalo desajeitadamente belo, cabelos emaranhados, juras tranquilizadoras de um silêncio a citar promessas e poesias. Dormida, a pobre sorria seus lábios cortados pela ansiedade, e ali, dormida, é que existia por uma última vez.
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